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Botões de volta, menos touchscreen, Diesel e puxadores clássicos: a viragem na indústria automóvel

Carro elétrico cinzento moderno em destaque num espaço interior com espelhos na parede.

Durante anos, a regra parecia simples: mais ecrã, mais electrónica, menos motor e menos mecânica. Só que o ambiente mudou. Entre novas exigências de segurança, irritação de clientes e ajustes de rumo na política, os construtores estão a rever tendências tecnológicas que pareciam intocáveis. De repente, voltam a ganhar destaque os botões “a sério”, os puxadores de porta tradicionais e até o Diesel.

Porque é que a euforia dos touchscreens está a travar a fundo

Na última década, os grandes grupos automóveis transformaram o habitáculo de forma radical. Funções que antes tinham comandos dedicados passaram para ecrãs tácteis cada vez maiores: climatização, bancos aquecidos, modos de condução - quase tudo ficou dependente de menus. O resultado pode parecer moderno, mas no dia a dia nem sempre é prático.

"Cada vez mais condutores queixam-se: não basta parecer bonito, se no quotidiano temos de andar sempre à procura no menu."

É aqui que entra o Euro NCAP, a entidade cujas estrelas nos crash tests influenciam directamente o sucesso comercial de muitos modelos. Nos próximos protocolos de avaliação, passa a ser exigido um número mínimo de comandos físicos no automóvel. Se esses elementos não existirem, pode haver perda de pontos na classificação de segurança.

A razão é clara: quando o condutor navega por menus complexos enquanto conduz, desvia o olhar da estrada durante demasiado tempo. Vários estudos indicam que a distração causada por touchscreens é comparável à de escrever num smartphone. Isso já não encaixa num conceito de segurança que pretende continuar a reduzir sinistros.

O regresso dos botões - e não é apenas nostalgia

Muitos fabricantes estão a levar o aviso a sério. Alguns modelos recentes já simplificam a estrutura de menus, recuperam teclas de acesso directo ou apostam em soluções mistas, com botões rotativos combinados com superfícies tácteis. Até marcas premium, que tinham apostado fortemente em painéis “futuristas”, estão a reconsiderar o desenho do cockpit.

  • Luzes, piscas e limpa-vidros: cada vez mais vezes voltam a ser controlados por manetes e botões
  • Ar condicionado: mais comandos rotativos, menos submenus e opções escondidas
  • Sistemas de assistência: botões de atalho próprios em vez de funções enterradas em menus

A tendência afasta-se do conceito de “tablet com rodas” e aproxima-se de um equilíbrio entre ecrã e consola clássica. O objectivo é reduzir a distração, tornar a lógica de utilização mais clara e baixar o nível de frustração.

Regresso do Diesel: porque é que um velho conhecido volta a interessar

Em paralelo, surge outra reviravolta: o Diesel, que muitos davam como morto, volta a ter margem para crescer. Em particular, o grupo Stellantis mantém a aposta em motores modernos de ignição por compressão e pretende alargar novamente a oferta para clientes particulares.

Há vários motivos por trás desta reaproximação:

  • Longas distâncias: quem faz muitos quilómetros continua a beneficiar de consumos mais baixos
  • Preços elevados dos combustíveis: cada litro poupado pesa - sobretudo na rotina de quem faz deslocações diárias
  • Tratamento moderno de emissões: os Diesel actuais ficam muito abaixo de limites anteriores

Também o contexto político contribui. A União Europeia flexibilizou o calendário para o fim “de facto” de novos motores de combustão. Isso cria espaço para modelos de transição - e é precisamente aí que vários construtores reposicionam o Diesel: não como símbolo do futuro, mas como escolha pragmática.

Plataformas híbridas em vez de dogmas 100% eléctricos

Além disso, vários fabricantes estão a recuar na ideia de plataformas exclusivamente eléctricas. Um exemplo: Renault e Geely trabalham num sistema modular que volta a permitir, num automóvel eléctrico, um pequeno motor de combustão a funcionar como Reichweitenverlängerer (extensor de autonomia).

"Da antiga doutrina sagrada “só bateria” passa-se para um sistema flexível que admite várias formas de propulsão."

A lógica faz lembrar conceitos anteriores de range-extender, mas agora com soluções mais compactas e eficientes. Para os clientes, isto pode traduzir-se em menos ansiedade de autonomia, sobretudo em zonas onde a infra-estrutura de carregamento ainda é escassa.

Quando o design se torna um risco: o fim dos puxadores de porta escamoteáveis

Há outro pormenor que mostra até onde chegou a obsessão pelo design: os puxadores de porta embutidos e retrácteis. Visualmente, parecem sofisticados e, em teoria, ajudam a aerodinâmica - mas na prática podem criar problemas. Depois de um acidente, podem ficar presos ou não ser imediatamente identificados por quem presta socorro.

Por isso, vários fabricantes, com marcas chinesas a liderar esta mudança, estão a abandonar esta solução. Os puxadores clássicos, bem visíveis, regressam. Em emergência, são mais fáceis de localizar e de accionar. Em troca, aceita-se um ligeiro aumento da resistência ao ar.

Regresso do monovolume e do citadino sem excesso de “high-tech”

A redescoberta do “antigo” também aparece nos próprios conceitos de veículo. O monovolume, que nos anos 1990 foi o automóvel familiar por excelência, começa a ser reabilitado com cautela. A Citroën, por exemplo, explora a ideia de um modelo moderno com muito espaço, posição de condução elevada e comandos simples.

Ao mesmo tempo, ganha visibilidade outra proposta: citadinos compactos, com menos carga de normas e electrónica mais contida, inspirados no princípio japonês do “Kei Car”. A ideia é servir trajectos curtos, estacionamento apertado e compradores que não precisam de uma “armada” de assistentes de condução.

  • dimensões exteriores reduzidas, muito espaço interior
  • tecnologia simples, mais fácil de manter
  • foco no uso diário em vez de encenação “lifestyle”

Uma contra-corrente ao excesso tecnológico dos últimos anos

Por trás destes sinais existe um sentimento comum: em várias frentes, a indústria foi longe demais. Jantes exageradas, áreas envidraçadas mais estreitas, frentes volumosas e interiores cheios de ecrãs tornaram o automóvel, para muitos, mais distante, mais caro e menos intuitivo.

"O mercado está a enviar o sinal: menos espectáculo, mais utilidade - e mais bom senso."

Muitos condutores querem voltar a ter melhor visibilidade em todas as direcções, menos aspecto de plásticos duros, formas mais simples e um interior com menos estética de “gaming”. Também irrita a presença constante de ícones de assistência e avisos luminosos. Os construtores começam a tratar este feedback com maior seriedade.

A alta tecnologia continua - só que mais discreta

Apesar do ar “retro”, a evolução tecnológica não pára. Software, sensores e sistemas de assistência continuam a avançar em força nos bastidores. A ambição de condução altamente automatizada mantém-se, ainda que já quase ninguém prometa datas exactas.

O que muda é a forma de mostrar tudo isto: menos luzes a piscar, mais inteligência escondida. Em vez de parecer uma loja ambulante de smartphones, o carro deve voltar a comportar-se como um objecto familiar, controlável de forma intuitiva.

O que esta tendência significa, na prática, para quem conduz

Para quem comprar automóvel nos próximos anos, esta alteração de rumo tem efeitos muito concretos. Quem estiver à procura de um modelo novo pode contar com benefícios práticos como:

Área Mudança Vantagem no dia a dia
Utilização mais botões, menos menus reacção mais rápida, menos distração
Propulsão oferta mais ampla com Diesel e híbridos maior escolha conforme o perfil de utilização
Carroçaria puxadores clássicos, mais áreas envidraçadas melhor visibilidade, operação mais segura
Conceitos de veículo regresso do monovolume e do citadino soluções mais práticas para famílias e cidade

Quem gosta de tecnologia não vai ficar sem novidades. Actualizações over-the-air, serviços conectados e assistentes “inteligentes” continuam a existir. A diferença é que a interface de comando se aproxima outra vez da lógica tradicional do automóvel.

Riscos, oportunidades e o que pode vir a seguir

Este novo pragmatismo também traz riscos. Se os fabricantes se agarrarem em demasia ao que já é conhecido, podem cair na estagnação. Se prolongarem demasiado a dependência de motores de combustão, podem ficar para trás caso as regras voltem a apertar nos próximos anos. O desafio está no equilíbrio: aproveitar o que funciona sem perder ligação à próxima etapa tecnológica.

Para os condutores, vale a pena familiarizar-se melhor com termos como “Reichweitenverlängerer”, “plataforma” ou “nível de assistência”. Um eléctrico com pequeno motor auxiliar pode ser valioso para quem faz longas distâncias diariamente, mas para uso puramente urbano pode ser um custo desnecessário. E um cockpit com menos toque, mas com botões bem posicionados, pode ser mais seguro do que um “tapete” de ecrãs visualmente impressionante.

No fundo, esta mudança de rumo transmite uma ideia simples: nem toda a proposta futurista se impõe para sempre. Quando a segurança, a utilidade e a experiência de utilização pesam contra, a indústria ainda consegue corrigir o trajecto - mesmo depois de anos de entusiasmo.

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