Na Europa, o Twingo de primeira geração é praticamente o retrato do carro simples para o dia a dia. Só que, num espaço de exposição na Florida, um exemplar igual está a ser tratado como se fosse uma peça rara de colecção - com um valor capaz de surpreender até os entusiastas mais experientes na Alemanha.
Minúsculo entre supercarros: Twingo num salão de luxo em Miami
O stand Mikalyzed, em Miami, é conhecido por trabalhar com automóveis especiais e, muitas vezes, caríssimos. No seu espaço, sucedem-se nomes de peso: Dodge Viper, Porsche 911 SC Slantnose, Rolls-Royce Cullinan, Lamborghini Countach, Shelby Cobra, GMC Typhoon, BMW M3. Num só local, concentram-se centenas de milhares de dólares em metal e potência.
É precisamente no meio desse “circo” de cavalos que surge um contraste inesperado: um Renault Twingo 1 de 1996, um modelo que, na Europa, costuma ser associado a recém-encartados e às idas semanais ao supermercado. Pintado num verde metalizado, com tecto de abrir, jantes de liga leve e o habitual interior de linhas arredondadas, o pequeno francês parece quase deslocado ao lado dos desportivos exuberantes.
Apesar disso, o citadino apresenta-se com boa imagem: foi limpo e preparado, fotografado de todos os ângulos e aparenta estar bem cuidado por dentro e por fora. O odómetro indica cerca de 105.000 quilómetros - longe de um “achado de celeiro”, mas também ainda sem sinais de fim de vida de um carro de uso intensivo.
“Na Alemanha é um usado barato - em Miami, um exótico a preço de luxo.”
20.000 dólares por um Twingo - como é que isto acontece?
O que realmente chama a atenção é o valor pedido: o vendedor anuncia o compacto francês por 20.000 dólares americanos. Convertendo, dá cerca de 17.350 euros. Para comparação, na Alemanha, Twingo 1 bem estimados com quilometragem semelhante costumam aparecer por valores bem abaixo de 5.000 euros.
Exemplos de mercado no espaço de língua alemã deixam clara a diferença de preços:
- bons Twingo 1 em condição de uso diário: cerca de 4.000 euros
- exemplares a circular, mas com defeitos estéticos: cerca de 2.000 a 2.500 euros
- propostas de youngtimer tratadas por entusiastas: cerca de 5.500 até quase 6.000 euros para anos iniciais
Mesmo um carro muito bem preservado do primeiro ano de produção raramente chega, por cá, à fasquia dos 6.000 euros. Em Miami, portanto, o preço situa-se algures entre três a quatro vezes o que um comprador europeu normalmente pagaria.
Porque é que a primeira geração do Twingo é tão rara nos EUA
A explicação principal não está no carro em si, mas na legislação e na história do mercado. O Twingo 1 nunca foi vendido oficialmente na América do Norte. A Renault, depois de problemas com modelos anteriores nos EUA, afastou-se em grande medida desse mercado. Assim, quem quisesse conduzir um Twingo por lá tinha de o importar de forma privada a partir da Europa.
A isto soma-se a rígida “regra dos 25 anos” nos Estados Unidos: veículos que não cumprem as normas americanas, em regra, só podem ser importados legalmente quando têm pelo menos 25 anos. Isto afecta sobretudo modelos que nunca foram homologados para aquele mercado.
No caso do Twingo, isso traduz-se no seguinte calendário:
| Ano do Twingo | Importação legal mais cedo para os EUA |
|---|---|
| 1993 (início de vendas) | a partir de 2018 |
| 1994 | a partir de 2019 |
| 1995 | a partir de 2020 |
| 1996 | a partir de 2021 |
Durante muitos anos, o mercado norte-americano ficou praticamente sem Twingos. Só de vez em quando apareciam exemplares importados - e, muitas vezes, em mau estado. Um caso em Chicago ilustra bem o cenário: um Twingo de 1993, acidentado, com ferrugem e cerca de 74.000 quilómetros, foi colocado à venda por aproximadamente 2.000 dólares. Mesmo sendo praticamente um “destroço”, ainda assim atraiu interessados, simplesmente porque o modelo é muito raro por lá.
O que torna um Twingo tão caro na América do Norte
O preço elevado em Miami resulta de vários factores que se acumulam. Quem pretende levar um Twingo para os EUA tem de contar com muito mais do que o preço de compra na Europa.
Custos típicos num processo de importação para a América do Norte:
- compra do veículo na Europa (incluindo preparação para exportação)
- transporte até ao porto, carga e frete marítimo
- direitos aduaneiros e impostos locais na entrada nos EUA ou no Canadá
- adaptações técnicas e inspecção/validação segundo regras locais
- seguro e registo
- margem do vendedor, que assume risco e adiantamento de capital
- fornecimento futuro de peças, muitas vezes possível apenas via Europa
Visto desta forma, os 20.000 dólares deixam de parecer apenas uma loucura e passam a reflectir uma soma de rubricas - com um extra associado à aura de peça de colecção. No Canadá, um anúncio no Québec já indicava essa tendência: um Twingo do início dos anos 90 foi anunciado por cerca de 15.000 dólares canadianos.
“Quem conduz um Twingo na América do Norte está a dizer: quero ser deliberadamente diferente - e pago de bom grado por isso.”
De carro de estudante a objecto de culto
Há ainda o peso da nostalgia. Na Europa, muita gente associa a primeira geração do Twingo à juventude: aulas de condução, primeiras férias, viagens nocturnas com amigos. O desenho com faróis grandes e os bancos traseiros deslizantes ficou gravado na memória colectiva.
Nos EUA, além disso, há o efeito “exótico”. O imaginário automóvel local é dominado há décadas por veículos grandes: pick-ups, SUV, muscle cars e berlinas de grandes dimensões. Um citadino minúsculo e colorido, vindo de França, destaca-se imediatamente no trânsito. Para coleccionadores que procuram algo “diferente” de propósito, isso tem apelo.
Também cresce a comunidade em torno dos chamados “quirky cars” - carros deliberadamente fora do comum, cheios de carácter, dos anos 80 e 90. Nesses círculos, um Twingo 1 pode ser colocado ao lado de modelos como o primeiro Fiat Panda, o Citroën 2CV de produção tardia ou o Nissan Figaro.
Compensa exportar utilitários antigos para o outro lado do Atlântico?
A pergunta é inevitável: se, na Alemanha, um Twingo 1 comum muda de mãos por alguns milhares de euros, não seria interessante exportar para os EUA? À primeira vista, as contas parecem tentadoras. Na prática, o processo é bem mais complexo.
Quem pondera seriamente essa hipótese deve considerar alguns pontos:
- Só veículos muito bem conservados e largamente originais conseguem valores altos.
- As regras de importação variam de Estado para Estado; um prestador especializado é quase obrigatório.
- O mercado é pequeno: poucos compradores nos EUA têm interesse real num Twingo.
- Câmbios, custos de transporte e taxas alfandegárias podem consumir o lucro teórico.
- Se o número de veículos importados aumentar, a “bolha” de preços pode rebentar rapidamente.
Para alguns entusiastas ou comerciantes com bons contactos na América do Norte, pode funcionar. Para o vendedor particular médio na Alemanha, porém, anunciar online no mercado doméstico tende a ser a alternativa mais realista.
O que o caso de Miami revela sobre o mercado de youngtimers
O episódio do Twingo caro na Florida mostra como as particularidades regionais conseguem mudar completamente a leitura de um automóvel. Um carro visto como banal num país pode transformar-se noutro num objecto desejado por coleccionadores. O que pesa são barreiras à importação, preferências locais e o espírito do tempo.
De forma geral, os youngtimers dos anos 90 estão a ganhar atenção crescente. Quem cresceu nessa época, hoje, muitas vezes já tem capacidade financeira para comprar o carro que antes era inalcançável - ou então o pequeno veículo onde tudo começou. Isso vai empurrando os preços também na Europa, mesmo que ainda longe do nível de Miami.
Para quem tem um Twingo 1 bem preservado na Alemanha, a mensagem é clara: deitar fora ou “despachar” a preço baixo quase já não faz sentido. Mantendo o carro estimado, é possível que, dentro de alguns anos, surjam bem mais interessados do que hoje - e dá para observar, com um certo sorriso, o impacto que este pequeno citadino consegue ter no mercado internacional.
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