É exactamente isto que está a acontecer, neste momento, no mercado de usados.
Um Gran Turismo coupé de luxo, desenhado pela Pininfarina e que em tempos custava bem mais de seis dígitos, aparece de repente com um preço semelhante ao de um SUV compacto familiar bem equipado do segmento abaixo. O caso concreto é o de um Maserati GranTurismo com motor V8 atmosférico, actualmente anunciado na Alemanha por menos de 25.000 euros - um valor que o coloca na órbita de um Dacia Duster novo.
Sonho italiano ao preço de um SUV familiar
O Maserati GranTurismo é frequentemente apontado como um dos coupés mais elegantes dos anos 2000. Quando foi apresentado, em 2007, os preços em novo variavam consoante o equipamento, mas ficavam claramente acima dos 100.000 euros. Hoje, já é possível encontrar algumas unidades por volta dos 25.000 euros - ou seja, ao nível de um Duster novo bem composto.
"Um antigo GT de luxo para gestores e celebridades desce para o patamar financeiro de quem conduz carros de serviço comuns."
Neste caso, está à venda uma unidade de 2009 por 24.990 euros. Para um automóvel desta categoria, o número soa quase irreal, sobretudo tendo em conta que se trata de um verdadeiro Gran Turismo com oito cilindros, tracção traseira e design italiano.
Design da Pininfarina: intemporal, não datado
O desenho do GranTurismo saiu da Pininfarina, o histórico estúdio responsável, ao longo de décadas, por vários modelos da Ferrari. A receita visual é a clássica: capot longo, balanços curtos e vincados, traseira larga e uma linha de tejadilho esticada.
- Frente longa e escultural com grelha bem marcada
- Cavas das rodas musculadas e uma linha de ombros larga
- Quatro lugares realmente utilizáveis apesar de ser um coupé
- Pormenores típicos da Maserati, como as três entradas de ar no guarda-lamas
Na altura, muitos jornalistas descreviam a silhueta como uma “tentação automóvel” - um carro perante o qual é difícil passar sem olhar para trás. Quase vinte anos depois, continua a parecer actual, sobretudo quando comparado com alguns SUV modernos mais exagerados no desenho.
O detalhe que distingue o exemplar anunciado: segundo a descrição, manteve-se totalmente original. Nada de escape desportivo, nada de folclore de tuning, nada de soluções improvisadas. Em desportivos italianos, isto conta a favor, porque muitos usados acabam por ser alterados de forma extensa ao longo dos anos.
Debaixo do capot: V8 Ferrari com 4,2 litros de cilindrada
O coração do GranTurismo é um V8 atmosférico de 4,2 litros, desenvolvido em Maranello. Este oito cilindros debita 405 PS e entrega 460 Newtonmetro de binário. Em versões posteriores, a marca também recorreu a um V8 de 4,7 litros com ainda mais potência.
"Som de V8 e tecnologia Ferrari num carro que hoje está na faixa de preço de um SUV do dia-a-dia - é precisamente isso que torna tudo tão apelativo."
De uma forma geral, o motor tem fama de ser resistente. Muitos exemplares ultrapassam sem dificuldade os 100.000 quilómetros, e alguns chegam mesmo aos 200.000 quilómetros, sem que o conjunto motriz se transforme num problema permanente. A diferença faz-se com um histórico de manutenção bem documentado e revisões regulares numa oficina com experiência em mecânica Maserati ou Ferrari.
Ponto sensível: caixa de velocidades e o que verificar
As primeiras unidades do GranTurismo foram equipadas com uma caixa sequencial que, por vezes, podia dar dores de cabeça. A partir de 2009, a Maserati passou a utilizar uma automática ZF de seis relações com conversor de binário, normalmente considerada mais fiável e mais suave no uso diário.
- Confirmar o ano: a partir de 2009 é frequente ter automática ZF
- Teste de estrada: mudanças devem entrar limpas, sem solavancos
- Registos de troca de óleo da caixa são um bom sinal
O automóvel em anúncio é precisamente desse período, pelo que recorre à automática ZF. Segundo o vendedor, motor e caixa estão a funcionar sem problemas, e a quilometragem ronda os 99.000 quilómetros.
Combinação de cores rara em vez do habitual cinzento
Para quem colecciona ou procura algo menos comum, há um ponto interessante: a carroçaria é num vermelho escuro, combinada com um interior bicolor em bege e vermelho escuro. A maioria dos GranTurismo saiu originalmente em preto, cinzento ou azul escuro. Para quem quer fugir ao “uniforme”, uma configuração destas acrescenta atractivo.
Ainda assim, convém que a emoção e a estética não apaguem a parte racional. Em cores mais extravagantes, vale a pena pensar se, mais tarde, será fácil encontrar comprador - ou se o mercado reage com mais reserva. Para muitos entusiastas, no entanto, um tom marcante faz parte da personalidade de um coupé italiano.
Pechincha com contrapartida: importado do Dubai
O valor baixo não aparece por acaso. Este exemplar foi entregue originalmente no Dubai e, mais tarde, importado para a Alemanha. O anunciante indica que a importação está tratada e que os impostos foram pagos. Ainda assim, falta o TÜV alemão, e o carro não está matriculado/regularizado para circulação no país.
"Sem TÜV significa que o comprador assume o risco de descobrir, na inspecção, problemas caros."
O comerciante defende que é precisamente este ponto que coloca o preço cerca de 5.000 a 7.000 euros abaixo do nível habitual no mercado alemão. Quem tiver jeito para a mecânica ou acesso a uma oficina onde preparar o carro pode poupar - mas fica também com todo o risco da verificação e de eventuais reparações.
| Factor | Vantagem | Risco |
|---|---|---|
| Preço | Muito mais barato do que veículos equivalentes na Alemanha | Possíveis defeitos escondidos podem pesar totalmente no orçamento |
| TÜV | Liberdade para escolher a oficina que fará a preparação | Sem passar a inspecção, não há legalização para circular |
| Histórico de importação | Clima seco pode ajudar a prevenir ferrugem | Calor pode degradar mais o interior e as borrachas |
Pelo lado positivo, estão incluídos quatro pneus novos, e o vendedor diz disponibilizar entrega. Assim, evita-se pelo menos uma viagem improvisada com um estado mecânico ainda incerto.
Compra barata, manutenção cara
Há um aspecto que muitas vezes passa despercebido no entusiasmo: o preço de compra pode estar ao nível de um Dacia, mas os custos de utilização não. Um coupé V8 italiano continua a ser um produto de luxo - e isso reflecte-se praticamente em todas as rubricas.
- Seguro: classes mais elevadas, sobretudo em contra todos os riscos
- Consumo: de forma realista, muitas vezes bem acima de 15 litros/100 km
- Preços de peças: travões, suspensão e electrónica estão longe de ser baratos
- Mão-de-obra e revisões: oficinas especializadas cobram valores hora mais altos
Quem compara apenas o valor do anúncio com o de um SUV novo do dia-a-dia arrisca-se a subestimar os custos posteriores. O mais prudente é contar com uma reserva financeira capaz de absorver imprevistos - por exemplo, uma revisão maior ao V8 ou uma reparação exigente na suspensão.
Para quem faz sentido um Maserati GranTurismo
Um carro destes dificilmente é a melhor escolha como único veículo para deslocações diárias. Encaixa melhor em quem já tem um automóvel prático para o quotidiano e procura, de propósito, um segundo carro emocional. Quem percorre apenas alguns milhares de quilómetros por ano tende a aceitar melhor os custos fixos.
O GranTurismo é mais indicado para quem:
- quer viver um V8 clássico sem turbo
- coloca o design italiano acima da praticabilidade fria
- aceita investir tempo e dinheiro em cuidados e manutenção
- procura um projecto/hobby de longo prazo, e não apenas um meio de transporte
E há um ponto prático: este coupé oferece, de facto, quatro lugares utilizáveis e uma bagageira competente. Isso torna o Maserati menos comprometido do que um desportivo puro de dois lugares e permite fins-de-semana fora ou viagens de férias - desde que se tolere o consumo e os custos de portagens.
O que verificar antes de comprar
Quem pondera adquirir um exotismo destes a “preço de Volkswagen” deve avançar com método. Uma lista de verificação ajuda a reduzir decisões impulsivas.
- Confirmar se o histórico de manutenção está completo, incluindo todas as facturas
- Considerar um teste de compressão ou uma avaliação aprofundada do motor
- Testar a parte eléctrica: infotainment, vidros eléctricos, ar condicionado, sensores de estacionamento
- Inspeccionar fundo e suspensão à procura de danos e corrosão
- Fazer uma pré-inspecção (tipo TÜV) numa oficina independente
Também é aconselhável falar com uma oficina especializada em Maserati. Muitas conhecem bem os pontos fracos típicos do modelo e conseguem, em pouco tempo, avaliar se um carro específico tem potencial - ou se tende a tornar-se numa máquina de queimar dinheiro.
Expressões como “sem TÜV” ou “pechincha abaixo do valor de mercado” devem ser sempre um sinal de alerta, quer se trate de um utilitário, quer de um Gran Turismo V8. Quanto mais exótico o automóvel, mais rapidamente um único defeito caro altera toda a conta.
Quem se preparar bem, fizer contas com a cabeça fria e reservar margem para reparações inesperadas pode tirar enorme prazer de uma oportunidade destas. Assim, o aparente delírio de um Maserati ao preço de um Dacia deixa de ser um pesadelo financeiro e passa a ser um projecto assumido, vivido com paixão, sobre quatro rodas.
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